Suas roupas estão vazias

17 out

Certa vez me perguntaram como o blog surgiu, e eu deixei a pessoa sem resposta, não porque não sabia, mas sim porque tinha vergonha de assumir que, quando num baque de sentimentos eu gostava mesmo era de chorar e escrever. Sei lá, pra mim as coisas fluem mais naturalmente.

E foi no término de um namoro de muito tempo (grandessíssimo baque pra mim diga-se de passagem) que essa coisinha aqui surgiu.

Em terceira pessoa as coisas soam mais bonitas:

Foi no primeiro domingo do ano de 2008.

Ele foi buscá-la em sua casa como o de costume. Ela entrou no carro, o cumprimentou com um selinho e seguiram pra casa da mãe dele. No caminho não trocaram muitas palavras, haviam discutido na noite anterior, o motivo: surto de ciúmes dela no restaurante japonês, nada muito aparente pros outros, apenas pra ele, que não aguentava vê-la calada num canto, ignorando todos ao redor.

Assim que chegaram na casa da ‘sogra’ foi cada um pro seu canto, e a tarde seguiu assim, sem conversa, sem olhar, sem amor. Terminaram de comer e o único diálogo que tiveram foi sobre o prato que deveria ser retirado da mesa.

Todos riam, conversavam e se relembravam da viagem de ano novo que fizeram  juntos pra Ubatuba. Todos falavam, menos ele com ela e ela com ele.

Na hora de ir embora agradeceram e se despediram dos que ficavam. Ele chamou o elevador enquando ela ainda saía do apartamento, quase não a esperou, mas resolveu fazer aquilo que lhe parecia uma obrigação: aguentá-la no caminho de volta pra casa.

Na estrada, ele pegou o retorno e entrou no caminho para a casa dela, foi nesse momento que ela se virou e perguntou por que seguiam por aquele caminho ao invés de continuarem reto até a casa dele. Ele se limitou a responder que estava indisposto e que preferia terminar a noite sozinho. O silêncio era tão profundo que chegava a entupir os ouvidos (aquela sensação de ‘descer a serra’, sabe?). Virou à direita, fez a manobra do carro e parou em frente ao portão marrom. Desligou o motor e ficou calado olhando pro rosto pálido dela, e assim foi por alguns intermináveis minutos, depois disse que precisava muito conversar com ela. Foram quase 4 horas de conversa, uma pra cada ano de namoro. Naquela tarde, ela desabafou tudo que estava entalado, assim como ele. Falaram de tudo, estudos, dinheiro, dúvidas, mas não muito do amor em si. Terminaram bem, não queriam se largar do abraço pois sabiam que aquele, daquela vez, seria o último. Deram o último beijo, salgado por sinal pois não conseguiam segurar as lágrimas, se desejaram coisas boas e se despediram. Ele ligou o motor do carro, acendeu o pisca-alerta, colocou o rosto pra fora com aquele sorriso de boca fechada, e acenou. Ela entrou em casa, não trocou de roupa, pegou um cobertor, deitou no sofá e chorou até cansar. Depois dormiu o sono dos cansados, dormiu tanto que acordou atrasada na manhã seguinte com o vazio no coração e a cabeça pulsante.

Aquela foi a semana mais cruel de toda sua história e não conseguia esconder a dor.

Até hoje ela ainda fica down ao lembrar de como eram as coisas, ou quando vê algum presente que ganhou, ou quando encontra alguma blusa velha dele no armário. Mas aprendeu que não dá pra sair na rua com uma fôrma esperando encontrar alguém tão bom quanto ele, alguém que goste tanto de tudo que ela gosta quanto ele, não dá. Ela se conformou. Sabe que outros vieram e que outros tão legais quanto também virão.

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